Manifesto: a luta pelo transporte e os erros da esquerda

A crítica que fazemos aqui é baseada nos acontecimentos nacionais das últimas semanas, mas principalmente no que aconteceu em São Paulo e na Baixada Santista. E também, claro, no nosso acúmulo de luta. Como nos consideramos militantes de esquerda, não deixa de ser uma autocrítica, partindo do pressuposto de que todos estamos do mesmo lado. Nós, que não integramos partidos, mas não somos apolíticos, muito menos anti-organização, questionamos as organizações políticas de esquerda em geral, que de fato têm sua parte de responsabilidade nesses episódios.

Nas últimas semanas pipocaram em todo o País manifestações contra o aumento das tarifas nos transportes coletivos. Como já discutimos aqui, e não é novidade, uma direita conservadora se apropriou dos protestos para empurrar suas pautas, que apesar do discurso são muito mais despolitizantes que o contrário. O tema da tarifa do transporte, bem como sua qualidade e (falta de) transparência na prestação de contas, ficaram em último plano com o atropelo da pauta reacionária, abrigada no guarda-chuva “contra a corrupção”, que com seu senso-comum e roupagem nacionalista, conseguiu ser mais atraente para a maior parte das pessoas do que as particularidades da luta por um transporte efetivamente público.

A ofensiva dessas pautas foi um fenômeno avassalador, que tirou a luta do espectro da esquerda. Mas nossa reflexão aqui é: quais os erros da esquerda que possibilitaram essa virada conservadora?

Herança do PT
Cabe lembrarmos que tudo isso é fruto da fragmentação da esquerda que já ocorria antes da chegada do PT ao governo federal (e depois se intensificou). Os partidos priorizaram a questão institucional e procuraram atrair para os organismos institucionais não só sua militância, a juventude incluída, mas também lideranças e militantes de movimentos sociais. Com isso o trabalho de base deixou de ser feito, abrindo a possibilidade de que a organização e as pautas reivindicatórias surgissem de forma espontânea e crescesse de forma virtual, até se materializar nas ruas como vimos no último período.

Apartidarismo x Antipartidarismo

Uma das características comuns à quase totalidade dos locais que recebem esses protestos é uma confusão entre apartidarismo (quando o movimento não é comandado por um partido político), e o antipartidarismo (a recusa da participação de qualquer partido nessas manifestações). Começou-se com uma discussão sobre a presença de bandeiras de legendas, até chegar-se ao absurdo da intimidação a partidários, e até agressões a pessoas que integram movimentos sociais, o que revela extrema ignorância, já que o próprio Movimento Passe Livre é um movimento social.

Insuflados por membros de organizações de extrema direita, como neonazistas e integralistas, esse público despolitizado, que nunca havia saído às ruas (e sempre condenou protestos do tipo), teve uma postura de violência contra qualquer tipo de organização que luta por causas sociais.
Colocou-se no mesmo saco todos os partidos do campo da esquerda (desde o PT até o PCR, passando por PSol e PSTU), entidades sindicais, movimentos sociais, e até grupos anarquistas.

Anti-organização

Ou seja, qualquer grupo organizado que se identificava como tal, que sempre esteve nas ruas, era expulso pelos manifestantes que nunca haviam participado de qualquer protesto, que não fossem as bizarras “marchas contra a corrupção”, de dois anos atrás. Em São Paulo, chegou a cúmulos como uma grande faixa com a inscrição “Meu partido é meu País”, que além de revelar uma inocência infantil, assusta pelo potencial perigo de um desenvolvimento dessa ideia. Revela também, nas entrelinhas, uma recusa a qualquer forma de organização política, como se a busca por mudanças não fosse por si só uma reivindicação política.

Hegemonização

Uma das causas que nos vêm à cabeça é a constante tentativa de hegemonização das organizações políticas de esquerda. A gente sabe que tal sindicato/entidade estudantil é dos partidos x e y, ou das organizações a, b e c. Isso reproduz a própria dinâmica interna de grande parte dos partidos, em que as maiores correntes disputam a hegemonia da legenda. Propositalmente ou não, esquecem que os nossos inimigos estão lá fora.

Mas o que é relativamente novo é a “vanguardização” dos protestos. Grande parte dos partidos e/ou outras organizações da esquerda levam essa hegemonização também para as ruas. Seja com inúmeras bandeiras ou com aparato técnico, como megafones e carros de som (o famoso “dono da bola”), grande parte dessas organizações pretende “ganhar” os atos, como se fosse essa a maior causa. Ou então esses próprios partidos ou organizações são quem convocam as mobilizações, o que se é justo no caso de sindicatos, movimentos e entidades semelhantes, só faz fracionar a luta no caso de organizações políticas, já que muitas delas parecem querer tutelar as manifestações, como se fossem donas dos protestos, ou pelo menos quem decide seus rumos, em vez de fortalecer para que esses movimentos caminhem com as próprias pernas – claro que com a contribuição dos compas partidários, e apoio das organizações, mas sem tentativas de disputa interna, afinal todos estamos do mesmo lado.

E apesar do que a vanguarda pensa, o povo pode ser despolitizado, mas não é burro. Quando as pessoas veem aquele monte de bandeiras, e de forma geral o aparelhamento das manifestações, há duas reações possíveis: ou pulam fora da luta, ou protestam contra essas tentativas. Por conta dessa postura de parte da esquerda, ela mesma acaba se isolando.

Anti-diálogo

Esse isolamento não vem de hoje, mas nas últimas semanas ficou evidente. Não foi a só a grande mídia que desinformou a população para que ela rejeitasse os partidos. Foram os próprios partidos que se fecharam à população que podemos chamar de “não-militante”.

Foi uma opção histórica de muitos partidos da esquerda se concentrarem nas disputas dentro dos muros de sindicatos, universidades e movimentos, enquanto o trabalho de base, tão importante para mudar a realidade das trabalhadoras e dos trabalhadores nos bairros e no campo, foi relegado a segundo plano. Se tornou uma disputa mais por cargos de diretoria e influência hierárquica do que exatamente uma luta social. Raros são os partidos ou organizações que investem mais na base, no trabalho do dia a dia, com os “peões”, do que na batalha por maior influência e hegemonia dentro das entidades e movimentos, como a tomada de cargos de direção.

Como resultado, quem está do lado de fora, que são a maioria das pessoas, não conhece os projetos e ideias desses partidos ou organizações, que por sua parte, além de se encastelarem nas entidades estudantis, sindicais etc, não se abrem à população em geral, muitos menos se preocupam em dialogar com essas pessoas. Claro que há exceções aqui e ali, mas só confirmam a regra.

Autonomia pra quê?

O relativo sucesso do MPL (antes do sequestro da pauta) só se deu porque o movimento deixou bem claro seu objetivo de curto prazo, que era somente um: a revogação do aumento da tarifa. Especulamos que essa meta, bem clara desde o início, foi definida com facilidade pelas próprias características do MPL, de ser um movimento pequeno, porém com acúmulo de mais de 7 anos, e acima de tudo: horizontal e autônomo.

A horizontalidade pressupõe que não há pessoas com poder de decisão maior que outras, e que uma pessoa não pode tomar, em nome do movimento, iniciativas que não sejam consensuadas pelo próprio movimento. Um membro do MPL, por exemplo, não poderia prometer a um governante que o movimento pararia com as manifestações com a revogação do aumento, se isso não tivesse sido aprovado anteriormente pelos integrantes do MPL.

Explicando melhor sobre a autonomia do movimento: entende-se que ele é independente de qualquer outro movimento, organização política ou instituição. Ele não deixa de ser aberto a todos os partidos e organizações, porém as decisões do movimento são tomadas pelos próprios integrantes, o que evita o que vem acontecendo em lugares com maior influência de partidos e organizações da esquerda: uma pauta mais extensa, para dar espaço às reivindicações das diferentes entidades, esvaziamento em anos de eleição, e conflito de interesses e objetivos, pelo que já dissemos anteriormente sobre as tentativas de hegemonização.

Enfim, como um coletivo de comunicação popular formado por militantes de esquerda que desejam que nossas lutas tenham êxito, no nosso pensamento a maior parte da esquerda combativa organizada:

– erra em repetir essas práticas de hegemonização e aparelhamento dos atos e dos movimentos;
– erra em não dialogar com a sociedade como um todo, preferindo atuar em meios como estudantil e sindical, ou se fechar em si próprias;
– com essas atitudes só ajudam a provocar nas pessoas a sensação de que estar organizado é algo negativo.

No que não acreditamos

Não temos a ilusão de que os partidos “de esquerda” que travam a luta institucional (da situação e de oposição), mudem seu foco institucional, quer dizer, visualizem nessa massa amorfa e despolitizada uma possibilidade de angariar votos para a próxima eleição.

No que acreditamos

Acreditamos que devemos trabalhar para aliar a luta popular por reinvindicações de direitos gerais, como a questão da tarifa, mas somar nas pautas trabalhistas, não para que os sindicatos e partidos da ordem tenham a hegemonia da luta social, mas para colocar na pauta novamente a luta da classe trabalhadora, marcar novamente o terreno, pois a direita (PSDB e aliados) já está se movimentando nesse sentido, inovando, inclusive, ao defender a entrada em movimentos sociais e sindicais.

Nossa esperança, e procuramos lutar por isso, é que a esquerda combativa possa superar o Esquerdômetro, e se unir nas lutas de maneira geral, sem deixar de lado seus próprios princípios, mas buscando ao máximo equalizar seus objetivos com os das organizações irmãs, e além de tudo, respeitando a completa autonomia dos movimentos sociais organizados. Esse é o primeiro passo para que mais vitórias como essa última do MPL-SP possam acontecer.

fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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9 pensou em “Manifesto: a luta pelo transporte e os erros da esquerda

  1. Muito bom texto e com reflexões muito bem pontuadas. Se tem uma lição que essas manifestações nos deram é que é preciso retomar o trabalho de base, a formação pela ação e a luta classista. Tamo juntos, parceiros!

  2. Boa noite,
    Rádio Juventude.

    Venho por meio desta manifestar a minha indignação…

    O GIGANTE ACORDOU…MAS…PRECISA DESPETAR…
    Renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem… Aos direitos da humanidade, e até aos próprios deveres… Tal renuncia é incompatível com a natureza do homem… E destituir-se voluntariamente de toda e qualquer liberdade equivale a excluir a moralidade de suas ações.
    Liberdade… Definitivamente não é aproveitar-se do momento do caos político… Da luta corajosa dos NOSSOS JOVENS… NOSSO POVO… Em suas genuínas manifestações… Que muitas vezes pagam com suas próprias vidas…
    Aos que usam as passeatas infiltrando-se … Promovendo saques… Destruindo patrimônio público… Seguindo o comando de indivíduos… Pouco interessados em reconstruir nosso país… Sem a menor intenção ou respeito por seus direitos… Interessados apenas pelo poder escorado em partidos ou outros poderes que esperam uma brecha para assumirem e cercearem totalmente a sua liberdade… Que … Aproveitam… Para reafirmar sua soberania… Vaidade sonhando entrar para a história da humanidade… Usando o teu desconforto e confusão… Para angariar controle e poder…
    A você que vive dividindo-se em etnias… Condições sociais… Partidos políticos… De esquerda… De direita… De centro… Revolucionário… Anarquista… Fascista… Terrorista… Nazista… Lembrem-se estamos no mesmo barco… E posso te afirmar que o teu lado vai afundar junto com as suas falsas convicções…
    Deseja-se realmente lutar por justiça… Direitos iguais… Fraternidade… Liberdade… Para de recorrer aos interesses próprios e sucumbir a falsas promessas… LUTE PELO POVO… PARA O POVO… E O ÚNICO PARTIDO… QUE VALE A PENA… LUTAR… É TUA HONRA… TUA DIGNIDADE… TUA PALAVRA… TUA LIBERDADE… JUSTIÇA E IGUALDADE..FRATERNIDADE… PARA CONSIGO E COM O TEU POVO…
    Desestabilizar-se em prol do momento ao invés de descobrir formas reais e concretas de conquistas… Civilizadas…
    Tua busca está na constituição… Embora arcaica… Ela te garante o direito de manifestar-se de todas as formas jurídica… Através de petições e abaixo assinado às reformas necessárias… Dessa forma… Havendo a sociedade formado um contrato entre todos… Dever-se-á atentar para a preservação da vontade e dos direitos gerais de toda a sociedade… Percebendo-se o que é vital para todos…
    Não podemos retroceder… No entanto… Não devemos seguir o molde antigo… A fim de repetir os mesmos erros… Que os custaram O direto de ir e vir… De pronunciar de pleitear… De verbalizar… Pagando um preço muito alto… Cercear a própria liberdade…

    Cristina Oliveira.

  3. Boa noite,
    Rádio Juventude.

    O que ocorreu em santos…Objetivo: Redução de passagens, fim do cartão transporte…
    O grupo que organizou a passeata prometeu ao povo que não haveriam bandeiras de partidos… Sindicatos e afins…
    As três primeiras passeatas foram fantásticas…Na medida em que a palavra
    chave era movimento apartidário o número de pessoas aumentavam…
    Na ultima passeata haviam 5.000.00 pessoas…
    No entanto durante a passeata haviam bandeiras partidárias…Houve desunião
    Brigas… de todo o gênero…O povo separou-se em grupos ,a dissolução começou nessa ultima passeata.
    O MPL deixou o grupo…
    Desmotivando as passeatas e manifestações…
    Parte do grupo composto por estudantes não queriam as passeatas ou manifestações aterrorizando o povo…De forma que o grupo e o povo não conseguiram mais estar unidos…
    Será que essa briga partidária com interesses individuais valeram a pena…
    O povo não é desinformado ou despolitizado…O povo sentiu-se enganado…
    E não quer movimentos que envolvam políticos…
    O que o povo quer: Passeatas com o povo mais sem bandeiras de partidos, sindicatos, religiosas…Quem deseja mudar o país tem que vir com o coração…Sem interesses individuais…
    Santos é a única cidade que não conseguiu se organizar unir-se em busca do objetivo para o bem comum…
    Hoje existem dois grupos distintos com números reduzidos de pessoas que não justificam…Ou chamam a atenção para nenhuma mudança…

  4. Cristina Oliveira

    Você fala em liberdade simplesmente querendo suprimir as diferenças de pensamento? De cultura e até social? Sem contar que você colocou tudo no mesmo bojo, etnia, partido, nazismo, anarquismo, condições sociais… Hilário, vou partir do principio que você apenas revelou uma tremenda ignorância ( no sentido de desconhecimento) ok? Então, por favor vai estudar um pouquinho! Porque com essa sua conversa furada é difícil de construirmos alguma coisa sustentável e livre mesmo, claro, se for para enganar e direcionar os desavisados para seguir que nem gado atrás de uma ideologia única e purista, vc está no caminho, montará uma nova Alemanha, mas te deixo a dica: a quebrada não vai deixar, porque a quebrada não engole essa conversinha de burguesinha mimada, quem está na luta não acordou agora! Quem está na luta nunca dorme queridinha.

    Sobre Santos, foi uma revolta popular, e na hora de se transformar num movimento as pessoas tiveram que decidir o lado pelo qual lutariam, além de que as pessoas querem as ruas da orla da praia, do Gonzaga para passear e mentir para si mesmo que estão mudando o mundo, quando o pau come se sentam no chão, batem palma pra polícia, cantam o hino nacional igual cordeiros e entregam os chamados “vândalos” o que rolou em Santos é que essa revolta em sua maioria era formada por um monte de X-9 que estava pensando somente em seu próprio umbigo, e quando o bicho pegou, pularam fora, enquanto uns tão querendo liderar, querendo fazer nome e outros querendo confundir para se aproveitar.

    Outra coisa tudo é política, o que você está fazendo aqui ao postar este comentário, é política, você está tomando uma posição, você está defendendo uma causa, mas, uma coisa, essa conversa de lutar pelo povo, pelo Brasil não me engana, você não passa de uma conservadora querendo que status quo continue porque lhe beneficia.

    Pra finalizar há muita ingenuidade em você acreditar neste Estado e nesta história de fazer as leis funcionarem. Você pelo jeito é do tipo que espera pelo papai noel, monta árvore de natal e essa coisas né? Ou é muito cínica. Te falo: é isso que nos diferencia e nos define, pois, eu, junto com muitos outros e outras estamos na luta contra essa sociedade hipócrita que fala em fazer luta sem colocar os pingos nos is, e historicamente sempre fomos criminalizados. Tranquilo! Amanhã é outro dia de luta! O que vai ruir é essa sociedade baseada no privilégio que gera exclusão.

    Predicar la paz es un crimen. Predicar la paz cuando el tirano nos deshonra imponiéndonos su vontad; cuando el rico nos extorsiona hasta convertinos en sus esclavos; cuando el gobierno, y la burguesia y el clero matan toda aspiracion y toda esperanza; predicar la paz en tales circunstancias es cobarde, es vil, es criminal. la paz con cadenas en una afrenta que se debe rechazar. […] Hay paz en la ergástula, hay paz en el cementerio. la paz en que medra el eunuco y se prostituye el ciudadno… Una paz asi, maldita sea!

    Ricardo Flores Magnón.

  5. “- erra em não dialogar com a sociedade como um todo, preferindo atuar em meios como estudantil e sindical, ou se fechar em si próprias;”

    A “sociedade como um todo” não é um ente, assim como não o é a “opinião pública”. É impossível dialogar com “a sociedade como um todo” – ainda mais assim, como num passe de mágica, a única maneira de organizar a classe trabalhadora é a partir de movimentos pautados na resistência contra as diferentes formas de dominação existentes no capitalestatismo – como a exploração do trabalho, ou a opressão disciplinar nas escolas. Sendo assim, é imprescindível atuar em meios como o estudantil e o sindical.

    Parece-me que a única maneira de trazer as trabalhadoras pras ruas e “somar nas pautas trabalhistas” (como o texto coloca) é a partir duma inserção nas bases, através de muita militância interna, diária, organizada, nos locais de trabalho. Ou seja, “atuar em meios como estudantil e sindical”, e disputar estes movimentos – incluindo sem dúvidas a organização de suas entidades.

    Uma militância desterritoralizada que pretenda atingir “a sociedade como um todo” (este ente u-tópico no sentido literal do termo), fora de movimentos sociais, ou feita por pessoas que não pertencem aquele território/corte social, é pura perda de tempo e ingenuidade. Comumente se reduz à um assistencialismo com fortes traços de solidariedade cristã, e nada agrega para a luta de classes.

  6. Olá Hugo como vai, acho que o erro no texto diz respeito uma questão semântica, “erra em não dialogar com a sociedade como um todo” quer dizer, que a maior parte da organizações estão engessadas disputando espaços, seja, estudantil ou sindical, ou mesmo se fechando em suas próprias organizações, a crítica diz respeito ” o não dialogo com a sociedade como um todo”, quer dizer romper os muros das organizações e ir pra rua no tete a tete falar com as pessoas abertamente, nas praças mesmo, nas esquinas, nas quebradas, pra afinar o dialogo e construir junto o poder popular, queremos discutir redução maioridade penal, vamos pra rua discutir com a população, sair das quatro paredes da universidade que só produz papel, do sindicato que vende plano odontológico, de organizações fechadas que só produzem teorias sustentadas diretamente ou indiretamente pelo suor dos trabalhadores. Abrir o debate mesmo, num movimento que promove a discussão, mas também se organiza, não há ingenuidade, nem perda de tempo nisso, muito menos solidariedade cristã, muito pelo contrário, é assumir que as esquerdas em geral sabem recitar muito bem todas teorias marxistas ou bakunistas, mas dialogar com a quebrada se caga toda, não entende porra nenhum, e quando tem um minimo diálogo quer levar a cartilha.

  7. Olha, não acho que seja semântica mas sim de concepção mesmo, e o desenvolvimento que você fez parece comprovar isto.

    Não entendo ser possível dialogar com a “sociedade como um todo” assim como com “a quebrada” desta maneira abstrata. Pois o fato de pessoas habitarem o mesmo bairro, ou serem dominadas politicamente pelo mesmo Estado-nação, não fazem destas atores políticos, digamos, automaticamente – mesmo que em potencial. Digamos, somente organizada a “quebrada” se transforma em ator político dialogável.

    Pra ser mais claro, parece-me possível dialogar por exemplo com um movimento comunitário que organiza politicamente parte das pessoas de uma “quebrada”, mas não com a “quebrada” em abstrato, pois, repito, esta não é um ator político concreto, tão somente denota uma determinada situação comum a algumas pessoas (morar no mesmo lugar no caso, mas poderia ser trabalhar para o mesmo patrão, estudar na mesma escola etc.)

    Todavia, mesmo a ideia de que as organização de esquerda devem dialogar com a sociedade como um todo, ou com o povo, ou com a quebrada, ou com a classe trabalhadora (pra não nos perdermos em emboscadas semânticas) parece-me exalar algumas problemáticas.

    A primeira, é que esta sentença tem como premissa que as organizações de esquerda necessariamente não são parte da classe trabalhadora. Que elas originariam na pequena-burguesia, na classe média (lembrando que classe média é um conceito neoliberal extremamente impreciso e indevido, pra não falar tosco e que serve os interesses da classe dominante), ou sei lá aonde. De fato existem organizações de esquerda com origens distantes dos movimentos sociais da classe trabalhadora, entretanto, isto tanto não me parece uma regra absoluta (o próprio PT tem uma origem classista), quanto, na verdade, tendo a acreditar que tão somente partidos de esquerda (sejam eles anarquistas, marxistas, sociais democratas, verdes ou o que for) nascidos por uma necessidade real da luta de classes podem de fato ter um papel revolucionário.

    A segunda é o fato de romantizar uma parcela específica da classe dominada em detrimento as outras. Uma trabalhadora não deixa de ser explorada por ter trocado sua maloca por um apêzinho financiado pelo “Minha Casa, Minha Dilma”. Não há motivo para se limitar ou supervalorizar um movimento comunitário em detrimento de um movimento sindical, tão somente porque aqueles são mais pobres. A lógica do quanto pior melhor é bastante frágil.

    Terceiro (e paro por aqui), contudo defendo sim que deve haver diálogo com os movimentos sociais territorializados nas quebradas, assim como com todos os outros movimentos sociais da classe. Mas, não prioritariamente diálogo entre partidos de esquerda (ou coletivos autônomos, ou sei lá o quê) e estes movimentos, mas sim diálogos – ou melhor, alianças de fato, pois só conversar parece-me pouco – entre os próprios movimentos sociais.

    Ou seja, pra concluir, entendo que uma organização de esquerda para poder ter uma perspectiva efetivamente revolucionária precisa primeiro nascer de uma necessidade concreta da luta de classes e já dentro de algum(s) movimento(s) classista(s) – não da cabeça de algum pretenso intelectual pretensamente revolucionário. Assim sendo, os militantes deste partido (que são também necessariamente militantes internos e de base de um determinado movimento social territorializado) devem incentivar que o movimento no qual militam como um todo realize alianças com outros movimentos sociais, e indubitavelmente, com os movimentos territorializados na quebrada. Parece-me pouquíssimo efetivo uma aliança de alguns indivíduos pretensamente politizados com um movimento social qualquer, ao menos se compararmos esta com a possibilidade de uma aliança concreta entre dois ou mais movimentos. Dificilmente um punhado de pessoas individuais – por mais politizadas que estas sejam – conseguirão mais do que uma espécie de ajuda assistencialista ao tentarem este diálogo por si mesmas – isto porque não é possível militar num território onde não se faz parte.

    • Só mais um ponto que pensei após ter mandado.
      Entendo, como o texto coloca, que boa parte das pessoas que compõem a classe trabalhadora não estão organizadas em movimento social algum. Ou seja, que há um potencial organizativo. Todavia, faz-se necessário que a classe se organize nos movimentos já existentes ou crie novos, tão somente “dialogar” pouco ajuda. E organizar a classe é inicialmente função dos movimentos, não de organizações de esquerda – principalmente não de organizações de esquerda que sequer possuem atuação interna e orgânica naquele determinado território. É claro que militantes partidários internos a um determinado movimento podem (e devem) contribuir para que o movimento dialogue com os não-organizados da categoria, e aumentar a parcela da classe organizada.

  8. Hugo

    Concordo com vc em muitos pontos, mas, não existe organização sem diálogo, não existe teoria sem prática, não existe transformação sem soma de forças, uma coisa completa a outra… e nós aqui e vc aí já decoramos isso de velho.

    Em momento algum propomos uma luta desorganizado, abstrata, individual, assistencial, para-quedista, sem estratégia, sem objetivos definidos, romântica e que super valoriza uma coisa e exclui a outra. A critica está exatamente no isolamento das organizações.

    Aí é uma questão particular minha, (não representa a opinião da rádio) um sintoma de falência das organizações políticas é exatamente a necessidade de se inserir nos movimentos sociais, mas isso dá uma discussão fudida e não pretendo me estender.

    Sobre atuar em locais onde não se pertence aí é uma reflexão interessante, não tenho esse problema porque atuo onde nasci e cresci, mas vejo que a maioria das pessoas que atuam em locais onde não residem, ficam nesse dilema por uma questão de legitimidade.

    Mas, é isso cara acho que vc interpretou mal, resumindo o que chamamos de “diálogo” como uma “conversa”, pois o que vc citou concordamos mano, agora bora construir o poder popular.

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