Resistência indígena

Foto; WEB

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O dia amanheceu quente em Brasilia. A semana de Mobilização Nacional Indígena, convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), previa uma série de audiências com parlamentares para discutir os diversos projetos de lei e emendas que violam os direitos dos povos indígenas. É bom lembrar que os direitos desses povos são garantidos pela Constituição brasileira. O problema é que, logo na primeira audiência – na Comissão de Direitos Humanos – a comitiva indígena, com 70 CONVIDADOS pela casa, foram barrados na porta e ficaram mais de 1 hora para conseguir entrar no que deveria ser a “Casa do Povo”. Ainda ontem, no final do dia, soubemos que todas as audiências previstas com os índios para a semana haviam sido canceladas.

Na tenda principal do acampamento, montada no gramado da Esplanada dos Ministérios, indígenas de varias etnias fizeram falas contundentes em defesa do seu direito a terra. Sem a terra, o povo indígena não sobrevive como cultura. A raiva e frustração dos índios se tornou visível: um grupo de xavantes foi para o lado de fora praticar tiro ao alvo com seus arcos e flechas em um mural com fotos de parlamentares da bancada ruralista.

No início da tarde, parlamentares da bancada indígena no Congresso Nacional foram até o acampamento para prestar solidariedade a causa indígena. Mas não adiantou. Em bloco, os indígenas saíram do acampamento e desceram em direção ao Congresso Nacional, que já estava com a segurança reforçada, com mais de 50 policiais em fila.

A cena que se segue é simplesmente surreal: os indígenas foram recebidos com spray de pimenta. Na cara. Na hora. Houve tumulto e corre-corre, pois havia muitas mulheres com crianças no grupo. Um pequeno grupo de negociação se formou na entrada no prédio. Enquanto isso, outro grupo de indígenas conseguiu furar o bloqueio e seguiu correndo pela lateral ate os fundos do prédio. Cerca de 50 seguranças da casa, armados com escudo, impediram a entrada dos indígenas e, no confronto, um vidro se quebrou, ferindo um índio no braço.

Enquanto isso, na frente do Congresso, guerreiros Kayapo e Xavante se reuniram em seus respectivos grupos, com cantos e gritos de guerra. Parte do grupo subiu e fechou a rua lateral do Eixo Monumental, parando completamente o transito por mais de uma hora. Uma comissão de indígenas recebeu permissão para entrar. Eles querem a extinção da PEC 215, que dificulta a demarcação das terras indígenas. No momento, o restante do grupo estão protestando em frente a varios Ministerios, mas estao sendo impedidos de entrar pela policia.

É grave que as vésperas de completar 25 anos, a Constituição brasileiro continue sofrendo ataques em nome do progresso e do desenvolvimento econômico. Um desenvolvimento que gera riqueza para poucos e passivo para todos. A atual investida é o mais organizado e sistemático ataque aos direitos constitucionais de povos indígenas. Defender os direitos deles não é uma luta isolada e parcial. Defender os direitos dos índios é defender a Constituição, os direitos humanos, seus territórios, a natureza, a biodiversidade e toda a pluralidade cultural que os envolve.

Texto: Tica Minami / MATILHA CULTURAL

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